Pesquisa: obras “não-objeto” + artistas cinéticos
Lygia Clark- Bichos
Na série Bichos, de Lygia Clark, o uso do metal não se limita à função estrutural — ele carrega sentidos que vão além do material. O aço, com sua aparência crua e industrial, transmite uma frieza concreta e resistente. Ao mesmo tempo em que é familiar e liso, evoca sensações primárias, instintivas. A ausência de pintura reforça essa proposta: elimina ruídos visuais e permite um contato direto, sem distrações. Não se trata de um objeto decorativo, mas de uma experiência sensorial e corporal.
As dobradiças, elementos comuns e facilmente reconhecíveis, são fundamentais nesse processo. Elas introduzem a ideia de flexibilidade e movimento, possibilitando que a obra assuma diversas formas. Essa maleabilidade faz com que o Bicho nunca seja o mesmo — ele muda de acordo com quem o manipula. Cada interação é única, sem roteiro, dependendo das decisões do espectador naquele momento.
As arestas pontiagudas não são suavizadas ou escondidas. Pelo contrário, exigem atenção e cuidado, convidando quem interage com a obra a se envolver com consciência. O risco — mesmo que mínimo — de se machucar ou danificar a peça intensifica a presença do corpo e a percepção tátil. O espectador precisa se mover com respeito, quase como diante de algo vivo.
Esse diálogo entre forma e interação faz com que a obra se comporte como um organismo: reage, oferece resistência, cede. O tato assume o protagonismo, revelando textura, peso, temperatura e movimento. É nessa relação direta e instável que o sentido da obra se constrói. O metal, inicialmente símbolo do industrial, torna-se veículo de experiência sensível, abrindo espaço para uma arte que acontece no corpo e no agora.
Julio LeParc
Julio Le Parc é um artista argentino extremamente importante na arte óptica e cinética. Le Parc foi co-fundador do Groupe de Recherche d'Art Visuel, um grupo de artistas que visava uma maior interação do público com a obra para que essa fosse aprimorada a partir da percepção e da ação.
O artista argentino, na opinião do grupo, é extremamente interessante, pois em todos as suas séries de trabalhos sempre utilizou técnicas distintas para aplicar o movimento nas obras, por meio de movimentação física, ilusão de óptica, truques de posicionamento de peças, etc.
Em sua série mais antiga de trabalhos, "Surfaces", o artista utiliza formas geométricas para representar movimento, instabilidade e progressão. Posteriormente criou a "Surfaces Coleur", uma outra série de arte óptica/cinemática, porém essa tinha um foco maior na interação que os arranjos de cores proporcionavam para as obras, além de não assumir tantas formas regulares e geométricas como a "Surfaces".
“Secuencias en rotación en blanco y negro”
(1959/2014)
O fundo preto se destaca com os elementos brancos, criando um contraste marcante que contribui para a ideia de movimento. As linhas seguem certo padrão e sequência, mas apresentam pequenas variações em suas posições e ângulos, o que gera uma sensação de dinamismo — tanto ao guiar o olhar do espectador em uma direção circular quanto ao sugerir certa profundidade.
No centro da composição, os traços parecem mais organizados, enquanto, à medida que se aproximam das bordas, tornam-se progressivamente mais desordenados. Essa transição reforça a ideia de expansão. Além disso, a percepção da obra pode variar conforme a distância do observador: aproximações e afastamentos revelam diferentes interpretações visuais da imagem.
“Alchimie 570” (2024)
O fundo preto funciona como um espaço neutro, destacando as cores utilizadas na composição. O autor cria um gradiente que vai dos tons mais quentes aos mais frios, com transições suaves que evitam que o olhar trave em algum ponto específico, permitindo uma navegação contínua pela obra. As linhas não são traçadas de forma tradicional; elas surgem a partir do alinhamento e da densidade dos pontos. O conjunto tem um formato geral que lembra uma meia-lua, estendendo-se para baixo em dois fluxos arredondados, criando um eixo de simetria. Dentro dessa forma, as linhas curvas e convergentes estabelecem uma sensação de movimento e dão origem a pequenas formas geométricas, como losangos. O olhar do observador é naturalmente conduzido de cima para baixo, acompanhando um movimento que parece descer dos arcos. Esse movimento é reforçado pelo ritmo visual criado pela variação na densidade dos pontos: nas áreas mais compactas, há uma impressão de maior velocidade e intensidade, enquanto as regiões mais espaçadas sugerem uma desaceleração. Além desse fluxo vertical, a composição também conduz o olhar do centro para as laterais, onde os pontos vão se dispersando gradualmente, reforçando a sensação de expansão e leveza.

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